Vamos falar de... Santidade!

Vamos falar de… Santidade!

Se calhar, quando ouvimos a palavra “santidade” ficamos um pouco baralhados com o seu significado.

Se calhar, muitas vezes, associamos a santidade apenas à vida dos grandes Santos da Igreja e, com isto, distanciamos a nossa vida desses exemplos, porque na nossa ótica humana e, por isso, falível a santidade não pode ser alcançável por qualquer um.

Se calhar achamos que para sermos santos, precisamos de fazer coisas extraordinárias e heróicas e, na verdade, somos só mais um no mundo.

E, se calhar, muitas vezes, antes de tentarmos começar a caminhar para a santidade, já estamos a desistir, porque afinal a santidade não é para nós.

Mas a verdade é que nos cruzamos cada vez  mais com grandes exemplos de santos dos nossos dias na história da Igreja e que, de uma forma ou de outra, vão influenciando a nossa vida, a nossa forma de estar perante os outros e o mundo e a nossa oração.

Para vermos como se calhar a nossa vida pode não distar assim tanto da santidade, deixo-vos a intervenção do Padre José Tolentino Mendonça, na Faith Night Out 2017 (18.02.2017):

“Há um equívoco de base. É o de acharmos que a santidade é uma coroa de glória para uns poucos que conseguem alcançar a meta. Todos os outros, que são a larguíssima maioria, olham inevitavelmente para a santidade como um embaraço, uma questão mal resolvida. Ora a primeira coisa a dizer é que a santidade não é ser capaz de marcar o golo final, a santidade são as chuteiras. A santidade não é o que tu alcanças no fim, mas aquilo que te é oferecido, de graça, no início e a cada instante. A santidade é Deus estar em nós, é Ele santificar-nos com a Sua presença, seja através da Sua palavra, seja através do Seu silêncio. Deus está em Ti. Tu és um lugar santo na paisagem. Quando São Paulo escrevia às diversas comunidades ele dirigia-se “aos santos que habitam em Corinto, em Éfeso ou em Roma”. E tinha razão. A reflexão sobre a santidade não é como é que havemos de descobrir a pólvora, mas como é que havemos de activar aquilo que somos. É dizer: Maria, Manel, Tiago, Madalena… torna-te aquilo que és.

Fizemos da santidade uma coisa tão extraordinária e abstracta, uma coisa tão abstrusa, pietista e inalcançável, que quase não ousamos falar dela. De certa forma, habituamo-nos a olhar para a experiência cristã como que acontecendo a duas velocidades: o caminho dos santos, descaradamente minoritário e heróico, uma espécie de zona vip da crença, e a estrada poeirenta e inglória que é aquela de todos os outros, e por maior razão a nossa. Ora esta concepção de santidade não pode estar mais longe daquilo que a tradição crsitã propõe. A santidade é a vocação mais comum e inclusiva que possamos imaginar. O pecado é banalidade do mal. A santidade é a normalidade do bem.

A história da santidade é a história daqueles que se tornaram aquilo que eram. E fizeram-no com liberdade, entrega e desassombro, fizeram-no com alegria e a batalhar, chegando-se à frente, sentindo que o cristianismo não é uma doutrina para os outros, mas um caminho de vida a descobrir e a viver apaixonadamente, combatendo os tiques do conformismo e das zonas de conforto que nos amolecem. Não há dois santos iguais, e isso é muito saudável, porque essa singularidade constituí-nos. Mas ao mesmo tempo a mensagem é sempre a mesma. Pensem na freira albanesa, Teresa de Calcutá que em Calcutá, a mais de cinco mil quilómetros da terra onde nasceu, viveu uma aventura grandiosa de amor aos últimos dos últimos, como ela gostava de dizer. Ou na norte-americana Dorothy Day, que foi sindicalista e pacifista militante, que foi presa pela primeira vez aos dezassete anos por integrar um grupo que exigia, diante da Casa Branca, a extensão do voto às mulheres, e a última, tinha ela já 75 anos, quando participava num piquete grevista de apoio a agricultores. O melhor retrato que temos de Dorothy Day é este comentário que alguém fez à sua vida: “Dorothy Day vivia como se a verdade fosse realmente verdade”.

Às vezes o cristianismo que vivemos parece um filme a preto e branco que envelheceu. É o cristianismo do mais ou menos. Sem fantasia, nem audácia, nem capacidade de transformar o mundo, como se o sal tivesse perdido a sua força. Um cristianismo insonso. Sei a responsabilidade que é falar a uma assembleia com vinte anos de idade. A cada um de vós eu digo: “vivam como se a verdade fosse realmente verdade”. Apaixonem-se pelo Evangelho e tenham sonhos. Sejam utópicos e sedentos. Criem. Inovem. Acreditem na força recriadora do amor. Não fiquem a tirar fotocópias das grandes páginas da história da Igreja: escrevam novas páginas. Perguntem porque não? Sejam terrivelmente teimosos. Digam muitas vezes: “não pode ser só isto”. Tudo o que é humano vos interesse. Nas artes, na política, no pensamento, na técnica, na escola, no trabalho, na vida da sociedade e da família, nas relações com os outros invistam o melhor de vós mesmo.

O escritor Léon Bloy dizia: «Só há uma infelicidade, que é a de não sermos santos». Ele tem razão.”