Ser missionário no Japão

Ser missionário no Japão

Falamos com o padre Marco Casquilho sobre o que é ser missionário no Japão e sobre o filme Silêncio. No final ele deixa desafios aos nossos jovens: “não construam muros… sejam como os samurais e ninjas”.

Agradecemos muito o seu tempo e as suas palavras.

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Quem é o Padre Marco Casquilho? Idade, origem, o que faze um gosto pessoal.

Sou padre da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN), incardinado na Diocese de Santarém. Tenho 39 anos e trabalho atualmente na Arquidiocese de Osaka (Japão). Gosto de fazer trekking e hiking nas densamente arborizadas montanhas japonesas. E adoro nadar nas tranquilas praias, banhadas pelo Oceano Pacífico.

Se tivesse de descrever o Japão a um amigo português o que diria?

Quando era criança recebi do meu pai como presente de aniversário o livro “Japão: país dos samurais e robots”. Este título define muito bem a Terra do Sol Nascente: um país onde o tradicional e o modernidade, o antigo e o novo convivem lado-a-lado.

Conte-nos como é ser missionário no Japão em 2017? O que faz? Onde? Está mais com cristãos japoneses ou emigrantes?

Trabalho em equipa pastoral com um padre vietnamita e uma irmã japonesa num bloco de três pequenas paróquias: Sennan, Kinokawa e Misaki. Aqui os cristãos são maioritariamente japoneses, mas existem também uma taiwanesa, uma eslovaca, alguns filipinos, indonésios, vietnamitas e vários latino-americanos… Celebro também uma vez por mês, em português, nas igrejas de Hamadera, Kobe e Sanda. A maioria dos participantes são brasileiros. Colaboro igualmente na Pastoral Latino-Americana. Celebro a missa em espanhol (ou melhor, em “portunhol”), quando é necessário. Passo a maior parte do tempo com fiéis japoneses, mas procuro dedicar a devida atenção aos nikkei, dekasseki , migrantes e refugiados que vivem no Japão. Vou com frequência visitar pessoas detidas pelos Serviços de Imigração.

O filme “Silêncio” de Martin Scorsese baseado no livro com o mesmo título de Shusaku Endo tem sido bastante badalado. Já viu o filme ou leu o livro? Como foram recebidos por aí? Qual a sua opinião acerca do filme/livro?

Sim, vi o filme de Martin Scorsese e li o livro de Endō Shuzaku.

Achei o livro desafiante.Trata-se de um romance que aborda complexas questões filosófico-existenciais. Tem algum fundamento histórico, mas não é uma história da missão no Japão. Alguns estudos recentes tentam analisar a sua perspetiva teológica.  O Pe. Adelino Ascenso (especialista português em Endō Shusaku) considera que o livro Silêncio apresenta-nos, não um Cristo triunfalista, mas um Jesus misericordioso, quase maternal, que sofre silenciosamente com os mártires e cristãos perseguidos. Nesta perspetiva, até pode ser um livro interessante e edificante. Porém, embora hoje em dia muitos ocidentais aclamem esta obra como a voz do cristianismo japonês, devemos confessar que o livro, após a sua publicação, foi muito contestado por católicos e protestantes japoneses. O próprio Endō Shuzaku responderá neste ambiente de contestação que tentou fazer literatura e não teologia… Hoje, perguntei em duas das congregações em que fui celebrar missa quem tinha lido o livro Silêncio. E para minha admiração constatei que apenas 20% dos fiéis o tinha lido. Num país onde se lê frequentemente esta resposta mostra-nos que Endō Shusaku certamente não se trata de um autor consensual entre os cristãos japoneses. Quanto ao filme de Scorsese, fiz a mesma pergunta em três paróquias distintas. E descobri que apenas 6 pessoas o foram ver. Pessoalmente, devo confessar que detestei o filme. Senti o mesmo sentimento de repulsa quando vi dois filmes de Luis Buñuel numa disciplina intitulada Figuras da religião no cinema, na Faculdade de Teologia da Universidade Católica do Porto. Penso que o filme de Scorcese é demasiado longo, cheio de imprecisões e estereótipos ocidentais…Seriam os camponeses japoneses realmente sujos, ignorantes e crédulos? Seriam os nobres japoneses que perseguiam os cristãos meros sádicos propensos a jogos psicológicos? E já imaginaram um padre português a encostar a cabeça na cabeça de um cristão japonês, num país onde se evita tocar, abraçar e beijar? Os diálogos em inglês também não favorecem o enredo. Ver um camponês japonês a tentar falar português e o padre a responder-lhe em inglês, não favorece muito a lógica do filme. Creio que o facto do filme de Martin Scorsese ser muito badalado se deve unicamente a uma excelente estratégia de marketing, o apoio dos meios de comunicação social e a difusão de críticas favoráveis ao filme e ao realizador.  Por isso, afasto-me da mainstream na apreciação deste filme. Na minha opinião existe uma outra produção luso-nipónica muito mais interessante: o filme “Os olhos da Ásia” de João Mário Grilo (1997).

O filme lembra as perseguições aos cristãos no século XVII depois do cristianismo ter chegado no século XVI com Francisco Xavier. Como é ser cristão hoje no Japão?

Hoje, ser cristão no Japão significa pertencer a uma escassa minoria, que não ultrapassa 1%.

O filme e o livro falam da difícil relação entre a cultura nipónica e o cristianismo. É usada a expressão “pântano” para descrever a cultura japonesa. Um teólogo alemão (Peter Neuner) dizia, por sua vez, que o Japão é “um laboratório das religiões e da religiosidade”. Sabemos que atualmente é um dos países mais industrializados do mundo. Quais são os grandes desafios (positivos e negativos) da cultura japonesa atualmente?

O escritor Hirata Oriza no seu livro intitulado “Devagar desçamos ladeira abaixo” aponta que o Japão já viveu o seu auge económico e aproxima-se agora do ponto em que tem de descer ladeira abaixo. Assim, ele considera que os japoneses têm de aceitar três realidades desoladoras:  “O Japão não é mais uma nação industrializada; o Japão não está mais em crescimento; o Japão não é mais um país desenvolvido e tem de combater uma longa recessão”.

Não creio que exista uma difícil relação entre cultura nipónica e cristianismo. A mensagem evangélica transmitida por S. Francisco Xavier propagou-se rapidamente por todo o Japão. Ao início, muitos japoneses chegaram mesmo a pensar que os padres (bateren) pertenciam a uma seita budista, procedente da India e receberam-os como se fossem bonzos. O tradutor japonês Paulo da Fé, também conhecido por Anjirō ou Yajirō, utilizará o termo budista Dainichi Nyorai para traduzir a palavra Deus. Isso mostra que não consideraram o cristianismo como uma religião estranha ao seu pensamento. Quarenta anos após o primeiro anúncio a Igreja Católica já contava com mais de 300.000 fiéis.  Não só camponeses, mas também nobres. No próximo dia 7 de fevereiro de 2017 celebraremos, em Osaka, a beatificação de um senhor feudal, o samurai cristão D. Justo Takayama Ukon. A perseguição sistemática dos supremos generais (shogun), iniciada no século XVII não erradicou o cristianismo totalmente. Durante 280 anos mais de 20.000 cristãos foram martirizados, mas a fé não morreu. Mesmo sem sacerdotes e religiosos, os cristãos japoneses perseveraram. Em 1865, o padre Petitjean, a celebrar sozinho na Igreja de Oura, será surpreendido por quinze “cristãos escondidos” (kakure kirishitan) que o vêm visitar. Então, porque existem hoje tão poucos cristãos no Japão? A bomba atómica Fat Man, lançada a 9 de agosto de 1945 em Nagasaki, dizimará 8.500 dos 12.000 católicos que viviam na freguesia de Urakami. E muitos mais cristãos morreriam com os efeitos da radiação. Os norte-americanos num só dia assassinaram quase o mesmo número que os tiranos japoneses em 100 anos. Deus lhes perdoe este crime hediondo contra os cristãos.

Endō Shuzaku descreveu o Japão como um pântano em que a religião cristã não consegue criar raízes. Mas a verdade é que o cristianismo criou raízes no Japão. Não se tornou uma árvore frondosa, mas é uma árvore com raízes profundas.

Os japoneses são muito religiosos. Dificilmente se consegue caminhar por uma rua da cidade sem se ver um templo (budista, xintoísta) ou pequenos oratórios (hokora) muito parecidos com as nossas Alminhas, em Portugal. Embora os cristãos sejam uma minoria, aqui e acolá, podem-se também ver as cruzes das Igrejas. Chamam mais a atenção as cruzes luminosas de igrejas evangélicas de origem coreana. Infelizmente, embora haja um profundo sentimento de religiosidade no Japão há, como num mundo ocidental, um afastamento das religiões institucionalizadas e um certo pragmatismo. Reza-se quando necessário e vai-se ao espaço sagrado quando é necessário celebrar algum evento especial da vida.

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Os jovens da nossa diocese e do nosso país têm bastante apreço pelas missões: Fé4Missão (diocese), Missão País (nacional), etc. Como é que fala de Jesus às pessoas?

Foi na Diocese de Santarém que começou a minha vocação missionária. Viajei pela primeira em vez com o pe. Ricardo Madeira e outros jovens, numa missão de voluntariado à Guiné-Bissau. E sinto-me profundamente agradecido ao nosso bispo D. Manuel Pelino, por sempre me receber afavelmente, responder aos meus mails e telefonemas. Em 2015, sob a orientação do Pe. Paulo, grupos de escuteiros da nossa Diocese, vieram participar no Jamboree Mundial em Yamaguchi e passaram alguns dias na Igreja de Sennan. Alegro-me por saber que continuam a existir novas iniciativas ao nível da Diocese e a nível Nacional.

Peço-vos que não fiquem surpreendidos, mas tenho de vos confessar que eu falo pouco de Jesus fora do espaço da Igreja… Com os não-crentes procuro primeiro a dimensão humana da amizade. Pouco a pouco, pelo testemunho de vida, os novos amigos e amigas vão-nos perguntado sobre a nossa fé. E aí chega a oportunidade para anunciar o Evangelho. Se formos bons cristãos, precisaremos de poucas palavras. As nossas acções falarão mais alto!

Uma mensagem para os nossos leitores?

Nunca construam muros em vossas vidas. Viajem muito, conheçam outros povos e culturas. Aprendam outros idiomas. Sejam como os samurais e ninjas, dediquem-se de coração a aperfeiçoar as vossas habilidades e técnicas. Sejam rigorosos nos vossos estudos e trabalho, como os japoneses. Amem a catolicidade da Igreja de Cristo, uma igreja onde a heterogeneidade de tradições se une numa fraternidade universal. Sejam missionários de Cristo não pelo proselitismo de palavras eloquentes, mas pelo vosso exemplo e testemunho de vida cristã.