Explica-me lá isso....

Explica-me lá isso….

 O QUE DEVEMOS SABER QUANDO FALAMOS DE CRUZADAS?

É muito comum, quando estamos num grupo de amigos, a Igreja surgir como tema de conversa. Normalmente, surgem também algumas críticas que, habitualmente, vão desembocar em questões como: “mas a Igreja também fez Guerras Santas, as Cruzadas” ou “a Igreja foi responsável pela Inquisição”. Este é o momento em que, por norma, ficamos sem saber o que dizer! Talvez por isso seja importante conhecermos melhor estes dois acontecimentos.

É importante termos presente que não conseguimos entender nenhum episódio histórico se o retirarmos do seu contexto e se o analisarmos com os olhos de hoje. Com as Cruzadas passa-se isso mesmo. Só as podemos entender se as integrarmos na forma como as pessoas pensavam na época.

As Cruzadas foram um movimento de cariz militar e base cristã que pretendia assegurar o domínio da Terra Santa. É preciso não esquecer que Jerusalém é uma cidade santa para três religiões: Cristianismo, Judaísmo e Islão e, como tal, todos queriam mantê-la sob o seu controlo. O avanço do Império Muçulmano para a Terra Santa fez com que a Cristandade europeia temesse pela segurança da cidade e decidisse organizar expedições militares para assegurar o seu controlo e a protecção dos cristãos que lá viviam.

Tiveram lugar oito Cruzadas entre os séculos XI e XIII, principalmente movidas por esta ideologia de protecção. Mas esta não era a sua única motivação. A nível comercial, o assegurar da manutenção das trocas comerciais com o Oriente era essencial para os mercadores europeus e a Terra Santa era um ponto de passagem das mercadorias vindas do Médio Oriente e do Norte de África que a Europa queria adquirir, sendo também essencial para o escoamento de produtos europeus. Perder o direito de passagem e comércio nesses territórios teria, assim, importantes consequências económicas. A nível político, existia na Europa uma geração de jovens aguerridos que pretendiam obter feudos e terras que os reinos cristãos já não tinham a possibilidade de atribuir. Existia, assim, uma necessidade de controlar o clima de tensão que se vivia no continente europeu e que facilmente poderia originar guerras internas. O aparecimento de um objectivo comum foi visto como uma forma de evitar a guerra na Europa. Por último, a nível religioso, existia a necessidade de proteger as comunidades cristãs do Oriente e de assegurar o livre trânsito dos cristãos que se deslocavam em peregrinação a Jerusalém.

Apesar das Cruzadas terem ficado, até hoje, conotadas com uma perseguição religiosa feita pela Igreja, a verdade é que estas expedições militares tiveram causas muito mais profundas e concretas que só se explicam pela conjuntura dos séculos em que ocorreram. É verdade que a noção de Guerra Santa estava presente, até porque na Europa se vivia ainda o período da Reconquista Cristã, mas muitos outros factores influenciaram o início e o desenvolvimento das Cruzadas e muitas outras entidades, além da Igreja, estiveram nelas envolvidas. Aliás, nem todas as expedições foram organizadas pela Santa Sé.

Além disso, temos, também de nos lembrar que outros acontecimentos históricos foram também eles motivados por um ideal de reconquista de Jerusalém para a Cristandade e não foram organizados pela Igreja. Os Descobrimentos portugueses, por exemplo. Desde o início, com o Infante D. Henrique, e até ao reinado de D. Manuel I, um dos principais objectivos da expansão portuguesa foi cercar o território muçulmano pelo sul e reconquistar Jerusalém para a Cristandade. Tratava-se, de facto, de uma questão de mentalidade e cultura que ultrapassava a Igreja e que só se explica pelo ambiente vivido na época.

Quando iniciamos algum assunto, seja num grupo de amigos, de jovens, ou em qualquer outro local, é importante que saibamos do que falamos. De outra forma apenas vamos conseguir aumentar o preconceito sobre os temas.

Se quiseres saber mais sobre o assunto, aqui ficam alguns livros que podes consultar:

Balard, Michel; Genêt, Jean-Philippe e Rouche, Michel, A Idade Média no Ocidente: dos bárbaros ao Renascimento, Publicações Dom Quixote, 1994.

Maalouf, Amin, As Cruzadas vistas pelos Árabes, Diffel, 2007.

Ana Carina Azevedo