Chave para abrir o Silêncio

Chave para abrir o Silêncio

Contexto histórico

Nos séculos XVI e XVII países como Portugal, Espanha, Holanda e Inglaterra partem rumo a locais longínquos como o Japão para, aí, espalharem a Boa-Nova de Cristo. Entre todos os missionários destaca-se, o papel que o espanhol São Francisco Xavier (século XVI) teve na difusão da cristandade. De início, o povo japonês aceita a presença estrangeira, destacando a presença jesuíta portuguesa, não só em questões religiosas, mas também económicas e políticas. Contudo, depressa o povo japonês regressa ao seu antigo culto budista expulsando toda a presença católica no país. É durante este período histórico do século XVII que o jesuíta português, Cristóvão Ferreira, vai em missão para o Japão. Aí encontra uma grande comunidade de cristãos que, devido a indicações do seu governo, não podem professar a sua fé. São sujeitos a torturas e perseguições a fim de negarem a fé na Igreja católica. O padre português acaba por ser capturado e obrigado a, também ele, apostatar a fé em Cristo.

Grupos de missionários partem em busca do padre a fim de averiguarem se este havia realmente apostatado. É a partir daqui que o Shusaku Endo inicia o seu livro. Baseia-se em figuras históricas criando personagens fictícias.

O enredo

 

Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe partem então rumo ao Japão após saberem que o seu mentor, Cristóvão Rodrigues, havia apostatado. Aí, deparam-se com uma realidade de perseguição e tortura para com os japoneses cristãos. Após assistirem a torturas acabam eles próprios por ser capturados e obrigados a declararem-se apóstatas. Ao longo de todo este tempo, Sebastião Rodrigues, questiona-se sempre quanto ao silêncio de Deus perante tamanha barbárie. Ele próprio começa a questionar a sua fé.

De destacar a grande capacidade de Shusaku Endo, e do próprio Martin Scorsese, em captar os silêncios, os ruídos, as neblinas que também acabam por se tornar personagens desta trama.

Principais questões

            Silêncio não é um filme para ser “lido” de forma plana. Não é o tipo de filme que se vai ver sem esperar ser interpelado por profundas questões de fé e de vida. Como afirmou James Martin, é um “filme sobre amor: compreende o amor e compreenderás Silêncio”.

            Nada é preto no branco, não se trata apenas de ter a coragem de afirmar uma crença ou a “fraqueza” de a negar. É um relato que, em toda a sua dimensão, retrata a luta entre a dúvida e a fé; a fragilidade e a fidelidade; o apóstata e o mártire. Aparentemente a resposta “fácil” seria a resposta de Kichijiro, verificada em apostasias recorrentes. Para apostatar o cristão tinha apenas de pisar o fumie, uma placa de bronze com uma representação de Cristo.

            Contudo, nos diferentes diálogos e desabafos de Rodrigues, depressa percebemos que a história leva-nos mais fundo. Leva-nos a um verdadeiro e individual itinerário de fé. O itinerário onde, em determinado momento, somos convidados a rever a imagem que temos de Deus. A imagem que o próprio Rodrigues tem de Deus. Na reta final do relato, Rodrigues acaba por apostatar. “Pisa” a imagem de Cristo, nega-O a fim de professar uma verdadeira imagem Dele presente nos seus irmãos. Apostata perante a visão de um Cristo triunfalista, não adequada à cultura japonesa. Apostata para professar um Cristo maternal, um Cristo débil; um Cristo companheiro do fraco, um Cristo que sofre com aqueles que Nele acreditam. O ato de pisar o fumie, deixa então de representar uma negação da fé para representar uma fidelidade ao Cristo presente nos outros. Não se pense que a sua apostasia se deveu a uma perda de fé. Esta revela-se antes após um momento de verdadeiro diálogo com Deus após uma longa desorientação perante o Seu silêncio.

            Do que falamos então quando referimos “silêncio”? Falamos, sim, do aparente silêncio de Deus perante o sofrimento do povo japonês e dos padres missionários. Aparente na medida em que Deus se faz presente no silêncio, apenas o padre não O conseguia sentir. Falamos também de um silêncio da instituição que é a Igreja perante a posição apóstata dos seus padres.

            “Silêncio” não é, então, um filme superficial. Não é um filme que pretende cativar os espetadores por momentos de riso e frases profundas e ligeiras. É, antes, um filme que nos pretende inquietar, que pretende que revejamos a verdadeira forma de viver a fé: se esta se baseia nas demonstrações públicas ou na vivência privada. O próprio Rodrigues abdicou de tudo na sua vida pública que o definia como cristão. No entanto, no final, percebemos que, no seu interior, se manteve profundamente cristão.