Homens, Mulheres e Filhos

Homens, Mulheres e Filhos

Informações

Realizador: Jason Reitman
Protagonistas: Kaitlyn Dever, Romsemarie DeWitt, Ansel Elgort
Ano de Lançamento: 2014
Duração: 119 minutos

Comentário

É um dado adquirido que vivemos na era da tecnologia e da internet, através das quais podemos facilmente comunicar com qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta. Temos até a pretensão de comunicar fora do planeta, como nos mostra este filme na cena de abertura com a sonda espacial Voyager, lembrando as narrações de Carl Sagan em “The pale blue dot”.

No entanto, a nossa era é também feita de contrastes e até contradições, pois apesar de todos os avanços, parece que somos incapazes de dialogar, comunicar e conhecer quem está bem ao nosso lado e até dentro da mesma casa. É disto mesmo que trata o filme “Homens, mulheres e filhos” (no original: “Men, Women & Children”).

Na trama acompanhamos famílias onde o diálogo não existe ou é a maior dificuldade. Pais incapazes de conversar com os filhos, casais que não falam entre si, problemas que se vão acumulando enquanto a internet a todos cerca e serve de escapatória para tudo. É na internet que o pai e o filho procuram prazer sexual; que outro jovem empenha o seu tempo e energia em jogos on-line e conversas sem compromisso dizendo tudo o que lhe vai na alma; onde uma mulher procura novos relacionamentos e o seu marido encontra serviços de acompanhantes; ou ainda, onde uma mãe expõe a sua filha que sonha ser atriz e famosa a todo o custo, enquanto outra mãe exerce um controlo quase obsessivo com a filha a pretexto da segurança.

O título do filme, que parece não ter grande nexo, já dá uma boa indicação das relações retratadas. Não são pais e mães, são homens e mulheres que parecem fazer tudo menos ser pais e mães com atenção, responsabilidade e zelo. O título em português foca mais os filhos e não apenas enquanto crianças (children). Mas talvez o acento não seja tanto a relação familiar mas a maturidade de cada personagem, ou a falta dela, em lidar com os seus problemas de vida.

Este filme de Jason Reitman parece buscar um tom de observação das relações humanas e das suas dificuldades com a mesma destreza ou crueza que já demonstrou em “Juno”, “Obrigado por fumar” ou “Amor sem escalas”. Os diálogos parecem mais demonstrar que simplesmente expor. E a voz da narradora conduz a história no espaço de onde se vê aquele minúsculo ponto azul que é o planeta Terra. Tudo se reduz a uma visão macro (reparem na contradição) que é tudo o que conhecemos das coisas, dos outros e de nós mesmos, e que faz continuar a existir. Não há grandes pormenores ou explicações de como cada personagem chegou à sua situação, mas tudo em traços muito largos com muita culpa e pouco sentido de responsabilidade. A realidade ou situação atual aparece como algo dado em que cada um foge dela à sua maneira.

A tecnologia também ajuda a contar a história com o conteúdo das várias mensagens e redes sociais que aparecem no ecrã possibilitando ao espetador perceber o que as personagens realmente pensam, apesar de dizerem coisas diferentes a quem está à sua frente. Assim se vêem as conversas paralelas num grupo de raparigas da claque ou o uso que um casal faz dos tablets ao deitar.

Cada história tem o seu peso na trama mas evidencia-se a relação entre Brandy e Tim. Temos casais em crise, traições, divórcios, brigas, pornografia, sonhos, rejeições, problemas com o próprio corpo, anorexia, medos, controlo, descobertas, suicídio. São os ingredientes deste filme que usa o humor negro (em português está classificado como “comédia romântica”) para mostrar como todos querem conexões e não tanto relações, em que os pais mostram atitudes de extremos enquanto procuram entender o mundo dos filhos que já não é apenas “real” mas também “virtual”, em que nada parece dar esperança à vida que se torna um grande vazio. No meio desse vazio a morte aparece como possibilidade desejada, mas é o sofrimento que acaba por fazer acordar para a vida.

Os problemas parecem demasiado grandes e a vontade para os resolver demasiado pequena. Mas a vida é feita de relações. É isso que nos faz humanos: pequenos, quase insignificantes, mas preciosos.

Trailer